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31.7.08
::Amarelo é a cor do girassol::
Ando com minha cabeça já pelas tabelas
Claro que ninguém se importa com minha aflição
Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando o cordão
Oito horas e danço de blusa amarela
Minha cabeça talvez faça as pazes assim
Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas
Eu pensei que era ela voltando prá mim
Minha cabeça de noite batendo panelas
Provavelmente não deixa a cidade dormir
Quando vi um bocado de gente
Descendo as favelas
Eu achei que era o povo que vinha pedir
A cabeça de um homem que olhava as favelas
Minha cabeça rolando no maracanã
Quando vi a galera aplaudindo de pé as tabelas
Eu jurei que era ela que vinha chegando
Com minha cabeça já pelas tabelas
Claro que ninguém se importa com minha aflição
Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando o cordão
( Chico Buarque - Pelas Tabelas)
UPDATE:
Pois é...
Fica o dito e o redito
Por não dito
E é difícil dizer
Que foi bonito
É inútil cantar
O que perdi...
Taí!
Nosso mais-que-perfeito
Está desfeito
O que me parecia
Tão direito
Caiu desse jeito
Sem perdão...
Então,
Disfarçar minha dor
Eu não consigo
Dizer: somos sempre bons amigos
É muita mentira para mim...
Enfim...
Hoje na solidão
Ainda custo
A entender como o amor
Foi tão injusto
Prá quem só lhe foi
Dedicação
Pois é... Então...
( Chico Buarque - Pois É)
7.7.08
::once upon a time::
Só porque não escrevo nada desde Março e Julho já começou. Não quero perder o blog, mesmo sem saber se um dia volto a escrever...
25.3.08
::Ain't life a hell?::
A gente procura no outro uma constância pra conseguir conviver consigo. Uma constância que ninguém tem. O problema é sempre nosso. Os orientais se suicidam por saberem disso como ninguém. É sempre o nosso medo, o nosso egoísmo, a nossa vergonha e desonra. Os ocidentais têm se safado com a desculpa de que a culpa é do outro. Cada um com meus problemas...
Viver comigo é insuportável, razão pela qual estar sozinho é sempre uma condição ruim, negativa e torturante. Minhas manias me incomodam, meu sotaque me incomoda, meu corpo me incomoda, minhas idéias me aterrorizam e a ausência delas ocasiona algumas catástrofes.
Porém, ainda assim, procuro pressionar, esfregar minha existência nas existências alheias, como se ao me esfolar, pequenos pedaços de tristeza fossem se desprender junto com a carne e se anexar aos outros. Minha angústia seria mais leve caso fosse carregada por muitas pessoas. Mas eu me esqueço que cada um possui seu próprio carregamento de merda, que cada um está se esfolando ao próximo desejando um alívio, que é cada um com meus problemas a filosofia universal.
No fim, caminhar sozinho, carregando a própria vida nas costas é tão dolorido quanto carregar a vida de qualquer outro enquanto esse outro leva a sua. Livro o próximo do fardo da minha companhia e passo a me concentrar no fardo da minha existência.
Não havia sentido antes, continua não havendo. O resto são ilusões e saudades...
11.3.08
::Mácula do apodrecimento::
Não acreditava em magia, fantasmas e ia à igreja pra agradar a avó. Começou a perceber que havia algo de não natural consigo quando comprou um porquinho-da-índia que morreu de um dia pro outro em sua casa. Depois de uma discussão com o vendedor, ganhou um novo animalzinho que não lhe durou mais que umas dezesseis horas. Considerou culpado o estabelecimento desonesto que vendia animais doentes. Pouco depois, recebeu um vaso de violetas de presente e assistiu perplexo as flores murcharem ao longo da conversa com a visita que o presenteara. Mortas, enegrecidas e retorcidas, como se não recebessem água já a algumas semanas. Aquilo não lhe saía da cabeça. Começou a fazer testes e testes que só serviam para que se sentisse mais e mais desesperado. Ao andar descalço pelo gramado de uma praça verificou as marcas queimadas, marrons, de uns pés em brasa que destruíam a vida frágil e verde das plantas. Seus pés. Comprava rosas, crisântemos, Girassóis para assisti-los morrer lentamente à sua aproximação ou de maneira instantânea tão logo fossem tocados pelos seus dedos, ou recebecem de perto o hálito de sua respiração. Como se aquilo já não fosse bizarro e assustador o bastante, percebeu que aquela maldição (chamava-a maldição) se tornava cada vez mais potente. Os animais o evitavam, causava dores de cabeça e estômago em qualquer um que tivesse com ele um contato menos breve.
Se sentia mal, sozinho, perdido e a sensação de deslocamento começava a cobrar o pedágio de sua sanidade. Sua presença matava, enegrecia, apodrecia. Os frágeis, os que mereciam o maior cuidado e carinho, sucumbiam ao seu toque e ao seu hálito. Carregava consigo uma maldição, carregava consigo a mácula do apodrecimento e não havia mais nada a fazer.
Vários são os motivos que me levarão ao exílio. Não direi como de outras vezes, que este é o fim do Bom Dia, Mundo Cruel!, mas existem milhões de assuntos que no momento requerem muito mais a minha atenção e o foco de qualquer lampejo de inspiração.
Sem falar que a Escola de Ciência da Informação da UFMG bloqueou o acesso e uso de blogs pelos alunos...
Me procurem em lugares onde não estou e meu nome em lugares onde minha presença vive.
7.2.08
::Pra bom entendedor...::
...meia palavra basta. Só que eu perdi algumas meias palavras por ser cabeça dura. Hoje, dando uma olhada nuns fragmentos de diálogos não lidos, acabei descobrindo um último tiro no pé, uma última falha séria por ter levado meu orgulho do "o que eu posso oferecer às pessoas" à frente, ao invés de procurar entender o que as pessoas realmente querem de mim.
Eu costumo duvidar da veracidade da qualquer coisa que me apareça em e-mails "foward". Mas nesse caso, muito mais importante que saber se Guerdjef realmente existiu e escreveu o que me passaram, basta entender que houve apropriação daquilo que ali estava escrito. Estava escrito pra mim.
Lei nº14 de Guerdjef
" Saiba a hora de sair de cena, de retirar-se do palco, de deixar a roda. Nunca perca o sentido da importância sutil de uma saída discreta"
Ter lido isso hoje fez com que vários caquinhos de dúvida se colassem mostrando uma grande, vergonhosa e desconfortável verdade. Eu sou uma anta...
1.2.08
::Sozinho::
Ouvia somente o eco do próprio pensamento na parede do cérebro. Não havia ninguém que o tirasse de lá. Resolveu tentar tirá-lo à força e gritou. O pensamento livre, foi lançado contra as paredes do corredor infinito com sua substância se repetindo pelo ar. Era o eco de um grito.
Sozinho
Sozinho
Só
Só...
30.1.08
::Quarta feira, três da madrugada::
As palavras vinham lentas, arranhadas do fundo de sua garganta. O timbre grave, rouco e baixo, ajuntados ao olhar perdido lhe davam aquela impressão de quem, no meio de uma crise de tristeza, começa a devanear incoerentemente. E ninguém poderia negar que isso era o que estava acontecendo ali.
“Deus existe sim. E é uma questão de existência tão complexa, que assim como a luz existe enquanto partícula e onda, Deus existe dentro de duas possibilidades distintas. Deus existe como uma propulsão física, histórica, externa a nós todos. Um grande túnel que se percorre eternamente de um ponto de entropia a outro, provavelmente o mesmo. Deus existe porque as coisas existem, porque os homens criam máquinas e criam vidas e alguém deve tê-los criado para isso. E esse alguém deve ter criado o criador num caminho infinito que vai desde as criações das criações humanas e regride através dos criadores do criador dos homens. Deus é a própria existência e a perenidade da existência, que se aceita e se torce em função de si, de existir-se, de existir os outros. A vida sempre encontra um jeito, a realidade sempre encontra um jeito. Deus é a vida e o jeito pelo qual a vida se encontra, transcorre, muda, involui, evolui. Deus está no cosmo, nas novas, na tecnologia, na entropia e nas cartas de tarot.
Por isso é que eu acredito em um desígnio de Deus. É simplesmente impossível não fazer parte da determinação de tudo. Esse Deus é aquilo que foi, é e está por vir. Uma massa de destino caótica e consciente da própria existência como um todo real. Talvez se nós não nos relacionássemos tanto com o tempo, essa coisa particular humana para entender a realidade, poderíamos estar nos relacionando com Deus, que é a própria realidade, quem sabe. Por pensar assim, eu me tranqüilizo um pouco, eu me encontro um pouco dentro dos grandes propósitos da realidade, que quem diria, eram os químicos e não os filósofos, que trabalhavam melhor para entender.
Mas Deus não pode existir somente como esse éter externo que nos obriga a respirar e matar-mo-nos *. Ele há de existir também dentro dos fundamentos menores das vidas e das coisas. Ele há de nos orientar em meio aos nossos medos e é a providência divina que nos trás as coisas doloridas com as quais lutamos dia após dia. Eu fecho meus olhos lacrimejantes e peço a Deus um cafuné, uma brisa quente que me aproxime mais de todos os homens e torne a existência menos pesada e menos solitária. Deus governa nossas paixões, nos entope de esperanças fúteis e se comporta como um homem cheio das falhas que nos são tão comuns em nossa inteligência. E deve ser assim com os outros animais, um Deus à imagem e semelhança deles todos. Deus é perfeito como uma lembrança boa. Deus é perfeito como o passado ou os homens que já morreram. Deus é perfeito enquanto coisa longe, porque, das coisas de perto, podemos e vamos reclamar e nos ressentir. Mas eu não reclamo do Deus imperfeito, porque é ele que me acaricia os cabelos e deixa dormir sozinho, com frio.”
Isso dito, sua respiração se tornou pesada e espaçada. O sangue no chão já era um conjunto de placas pastosas e escuras, com cheiro forte de ferrugem. Sua boca se mexia um pouco, mas ela sabia que ele já não queria mais dizer isso.
Então, mais tarde, ela me contou essas coisas para que eu escrevesse. Eu mesmo não sei se isso seria um argumento conversor, evangelizador. Talvez porque eu não estivesse lá, sentindo o cheiro de ferrugem, vendo o sangue escorrer e aquele corpo estranhamente deformado tremendo e se contorcendo, deixando escapar alguma coisa que chamamos de vida.
*N.A.: Com o perdão da expressão
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