Bom Dia Mundo Cruel!
 

 
E o que é tudo senão o que pensamos de tudo? (Fernando Pessoa)
 
 
   
 
18.6.04
 
E era uma vez uma lagartixa. Mas essa lagartixa da história não era assim, comum, tinha algo especial. Essa lagartixa possuía (ou assim pensava, ou ainda, queria) o mais lindo rabo que uma lagartixa poderia desejar. Não desprezaremos nossa protagonista, seu rabo era mesmo de fazer inveja às companheiras de rastejo, motivo de constantes comentários e elogios. E ainda por cima, contrariando todas as leis da boa alimentação, moradia saudável, hábitos leves e práticas de terapias alternativas, a lagartixa em questão vivia numa cidade grande, um desses grandes complexos urbanos dedicados à atividades financeiras e em alimentar a indústria do medo.
Mas vá lá. Um dia, ia o réptil com sua saracoteante cauda e seu andar frio e desengoçado pela rua. É sabido que este tipo de bicho não possui nenhum de seus superpoderes (escalar paredes, reflexos ampliados e 6º sentido e visão de calor capaz de dizimar um ser humano em uma piscadela) antes dos horários de onde o sol pode alimentar sua pele criando assim os maravilhosos efeitos acrobáticos que tendem a falhar quando indivíduos com pouco ou nenhum cabelo resolvem atravessar um recinto passando por debaixo de um desses bichos. E havia lá uma grande e larga avenida. O fato se deu muito de repente. A lagartixa de uma forma esdrúxula acabou prendendo sua pata traseira numa falha da rua e naquele resmunga-e-puxa pela liberdade percebeu um grande caminhão que se aproximava furioso.
Todos pensaremos nos terríveis pensamentos de morte que passaram pela cabeça da lagartixa aí, mas todos estaremos terrivelmente enganados. Ela já estava aparentemente sã e salva de seu lado da avenida, exceto por uma pequena parte de seu corpo, aquela que, segundo ela, deveria ser poupada antes de qualquer outra. O bendito rabo estava para se esmagar pelo caminhão. Em seu lerdo raciocínio, o réptil se debatia e tentava de todas as formas desvencilhar sua pata daquela armadilha do destino, mas tudo parecia em vão.
E quando tudo parecia perdido para o mundo (que perderia o mais sublime exemplar de rabo de lagartixa que Deus ou quem quer que fosse já tinha produzido), finalmente seu pé se soltou. Mas aí já era tarde. Não havia tempo para fuga. E o bicho frio. Então, num súbito ato de heroísmo, somente visto em heróis japoneses, ela reuniu tudo que tinha de si e dando um impulso violento se virou no ar levando sua cauda para o lado oposto de onde a roda iria esmagar. Tudo isso num momento em que sua cabeça se tornava alvo e era esmagada por um caminhão numa via pública numa manhã de um dia qualquer.
E somente o mestre Chico tem as palavras certas para o encerramento da fábula que conto: ¿morreu na contra-mão atrapalhando o sábado¿!

Moral da história: por um bom rabo a gente perde a cabeça.

16.6.04
 
Ah, eu não contei que estou fazendo um curso de desenho e quadrinhos? Pois é, estou (Marvel, me aguarde)...

15.6.04
 
EU QUERO O AMOR
DA FLOR DE CACTUS
ELA NÃO QUIS

EU DEI-LHE A FLOR
DE MINHA VIDA
VIVO AGITADO

EU JÁ NÃO SEI SE SEI
DE TUDO OU QUASE TUDO
EU SÓ SEI DE MIM
DE NÓS
DE TODO O MUNDO

EU VIVO PRESO
A SUA SENHA
SOU ENGANADO

EU SOLTO O AR
NO FIM DO DIA
PERDI A VIDA

EU JÁ NÃO SEI SE SEI
DE NADA OU QUASE NADA

EU SÓ SEI DE MIM
SÓ SEI DE MIM
SÓ SEI DE MIM

PATRÃO NOSSO
DE CADA DIA
DIA APÓS DIA


(O Patrão nosso de cada dia- Secos e Molhados)
 
Querida Fênix Autista,

Olá, tenho muitas saudades de você. Estou endereçando isso à você em especial porque acredito que sua alma poética vai entender tudo que quero dizer aqui, e só ela. Não se assuste se o resto de você considerar isso um absurdo.
Que bom que você tem ouvido Elis e que bom que você se lembra de mim ao ouvi-la isso mostra que nossa amizade ainda é a mesma: um grande apanhado de lembranças de encontros que não tivemos (e algumas festas onde eu te ajudava a passar mal). Estou pensando em passar a encarar minhas amizades como eu encaro a Kathúcia. Pessoas que vão fazer muito mais falta do que presença na minha vida. Eu perdi o meu CD da Elis. Foi roubado. No mesmo assalto que me fez perder os óculos antigos (aqueles que eram e foram roubados). Ultimamente tenho ouvido muito Secos e Molhados. Se você não tem feito isso devia começar a fazer ("que o vinho quente do coração/ lhe suba a cabeça- espessa-a"). Às vezes eu uso os "Secos" pra me lembrar de você, do Feliz, do Hudson, do Mangões e do resto do povo. Às vezes uso só pra lembrar de mim (porque eu sempre fui extremamente egocêntrico, nisso eu não mudo). E eu fico me perguntando: o que será que eles devem estar fazendo agora? O que será que eles faziam antes. Você é sempre o alvo mais curioso, porque eu nunca soube o que você estava fazendo. Coisa de autista. Todos os meus amigos depositaram uma quantidade enorme de fatos e informações sobre suas vidas. Eu sempre analisei situações concretas de pessoas reais e nunca ficava de boca fechada (a Mariana ontem me contou que eu sempre interrompo qualquer pessoa que converse comigo, eu sempre tenho que dar a minha opinião mesmo antes de saber tudo sobre um determinado assunto. Tão típico dos seres humanos isso). Mas eu raramente conversava sobre coisas concretas e fatos com você. Era sempre uma situação irreal atrás de outra. "Se você para de beijar na boca seus lábios começam a enrrugar, seu hálito fica horrível e nós nos curvamos e envelhecemos!"- eu me lembro do seu olhar terrificado ao ouvir isso logo de mim. Você sempre falou com sua linguagem cifrada que eu nunca entederia se fosse cego, já que era preciso me concentrar bastante nas suas expressões faciais para chegar perto de te entender. Eu sempre fui um cabeludo conservador e aos poucos tenho me tornado só um conservador (não vamos nos estender na questão do "eu não sou mais um cabeludo"). O mundo é um lugar louco, distorcido, voador e pesado. E nunca foi diferente. Aliás, sempre foi diferente, mas minha forma de alterá-lo é que nunca muda. Só eu mudo. Só eu desenxergo. Isso tudo pra manter minha pose de impassível.
Mudando um pouco o assunto, acho que nunca mais nos veremos. Eu vou até aí e não apareço. Você vem até aqui e eu não apareço. E vice-versa. E quanto mais eu vou até aí, mais descubro o quanto eu não sou mais de Divinópolis, estou me sentindo um Flashman (você sabe, aqueles japoneses... Você não sabe? ah, deixa pra lá). O fato é que eu faço as minhas escolhas e todas elas fazem alguém sofrer, ultimamente tenho optado pela lei do sofrimento mínimo. Já que é pra esfaquear, quem é que vai sangrar menos? E por isso eu entro numa situação complexa e por muitas vezes incômodas: se eu escolho quem vai sofrer eu tenho que ser frio não? Mas se eu tento deseperadamente poupar o sofrimento, é porque sou... sou... (eu nem sei qual o oposto de frio) emotivo? Quente? Quentinho? Sei lá, deixa pra lá isso também. Mas apesar de acreditar que não nos veremos de novo, não deixo de querer notícias suas. O Feliz, por exemplo, tem mutas saudades de todos nós mas está satisfeito como só o diabo é hoje. E eu sinto muitas saudades, mas também tenho pouquíssimos motivos para não passar o dia com um sorriso bobo na cara. Eu sempre me achei meio mãe nessa vida, só as mães são felizes e eu estou sempre feliz. Ontem eu ouvi falar num negócio chamado o jogo do contente, um lance de procurar um lado positivo e se alegrar com cada grande merda que alguém faz na sua vida. Eu achei estúpido. Depois me lembrei que a Mariana também já disse que tem a impressão de que eu vivo assim. Que tudo me faz feliz. Se ela estiver certa, tenho medo de que nada tenha significado na minha vida. Mas ela não está sempre certa. Você é minha amiga, certo? E como minha amiga você sabe muito bem que a causa motivadora de minhas reflexões filosóficas são Deus e os comportamentos sexuais das pessoas. Bem, acho que fiz alguns avanços em relação à Deus. É mais ou menos como no jogo do contente. Tente ver Deus em tudo que acontece na sua vida. Depois disso você se sente estúpido o suficiente e chega a conclusão de que esse cara não existe. Depois você começa um novo jogo. Com sexo é diferente....
Mas uma coisa é certa, agradeço à Deus por não ter nascido um cisne. Sou eterno. Hehehe...
E eu menti, acho que nós ainda vamos nos encontrar sim (ou talvez eu esteja dizendo isso só pra você mandar notícias suas).
Mas vou ficando por aqui, pensando em porque você não veio até minha casa quando esteve em BH (já você sabia o caminho)...
Beijinhos,
Rodrigo

PS: por favor, eu não quero assustar niguém com isso. Se mais alguém quiser entender isso de verdade, fujam das evidências, das aparências e dos significados latentes. E eu acho que hoje meu celular deve funcionar durante toda tarde.

8.6.04
 
Esse eu achei hoje. É de minha conterrânea, a Adelinha. Acho que ela fez esse quando era apaixonada por mim...

Amor Feinho

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro,
doido por sexo e filhos tem
os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores
ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial;
o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

(Adélia Prado)

Já já eu dou uma arrumada aqui...

2.6.04
 
:: RETIFICAÇÕES ::

Burocracia é um saco. E podia ficar por isso mesmo, acabar no ponto final, ninguém iria discordar. Mas acontece que exixtem formas de lidar com a burocracia para que ela fique menos destrutiva e se aproxime daqueles "modelos utópicos" que todos gostaríamos que existissem. Um belo exemplo de onde isso aconteceu foi o sistema de bibliotecas da UFMG. Foi implantado um novo software onde todos precisaríamos de senhas para fazer reservas, renovações, empréstimos e demais serviços prestados. Isso gera, normalmente, uma situação de desconforto, pois o usuário se vê obrigado a guardar consigo mais uma senha de acesso, essa, para um serviço tão básico como o da biblioteca. Mas então é que entram as vantagens. Com posse da senha, o usuário não precisa se dirigir ao balcão para obter informações. Agora ele pode fazer isso utilizando um terminal de atendimento na biblioteca ou a internet em sua casa. Pode fazer suas reservas e renovações sozinho (o antigo sistema só podia ser operado pelos funcionários) o que gera muito conforto e discrição. E além de tudo isso, o usuário conta com um eficiente sisitema de alerta, para deixá-lo ciente dos materiais que devem ser devolvidos ou renovados. Eu, como odeio sisitemas de alerta, marco tudo como spam e me livro dessa bobagem, mas achei muito legal poder mexer no meu cadastro sem ajuda de ninguém além de um manual.
 
Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber
Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha
E Clarice está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom samaritano
Cumprindo o seu dever, como se fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente

Nada existe pra mim, não tente
Você não sabe e não entende
E quando os anti-depressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarice sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte

Mas esse vazio ela conhece muito bem
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar pra casa à noite

Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo

E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres

Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarice está trancada em seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu descanso

Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes

Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir
E vou voar pelo caminho mais bonito
Clarice só tem 14 anos


(Clarisse- Renato Russo)

 

 


   
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