Pronto! Acabei! Finalmente! O Tempo e o Vento, maravilhoso épico gaúcho de Érico Veríssimo já consta inteiro em minha curta (curtíssima meu Deus!) lista de livros lidos. E pensando em algo que sintetisasse o que eu sinto com relação à história, os personagens e as idéias exploradas pelo livro acabei descobrindo uma música, que eu tenho certeza que se estivesse ouvindo ao terminar a leitura teria caído no choro:
Eclipse
All that you touch
All that you see
All that you taste
All you feel.
All that you love
All that you hate
All you distrust
All you save.
All that you give
All that you deal
All that you buy,
beg, borrow or steal.
All you create
All you destroy
All that you do
All that you say.
All that you eat
everyone you meet
All that you slight
everyone you fight.
All that is now
All that is gone
All that's to come
and everything under the sun is in tune
but the sun is eclipsed by the moon.
(Pink Floyd)
E agora o comentário cretino (não podia faltar, claro):
Decobri que de todos os tipos regionais do Brasil, o gaúcho é aquele que melhor entende a natureza bissexual de todo ser humano. Em que outro estado desse país, num diálogo de pai pra filho, podemos encontrar o seguinte conselho para o alívio das angústias psicológicas (vou transcrever o parágrfo que é pra vocês entenderem o contexto):
Floriano fez meia volta e aproximou-se da porta, já meio em ritmo de fuga, para que o pai não visse a comoção que o dominava. Quando ele estava já com a mão na maçaneta, Rodrigo gritou:
_ Mas não te esqueças, de vez em quando solta o Cambará!
(grifo meu)
A história foi sugestão do Janus. Mas acho que no fundo, no fundo, vem da minha empolgação com o Veríssimo.
Estava tudo escuro. ele podia enxergar através daquela estranha neblina o que seria uma estrada. Uma estrada estranha (aquilo no chão era asfalto?), sem muitos limites horizontais, mas mesmo assim uma estrada. Apesar de se perguntar o que fazia ali (meu Deus, eu não me lembro dos últimos cinco minutos), caminhava e seguia. Isso lhe parecia óbvio. Lá pelas tantas da caminhada pareceu escutar vozes. Prestou atenção e confirmou. Era um murmurinho distante mas ele podia escutar. Será que aquilo seria um motivo para se sentir aliviado? Por que é que esta maldita angústia cresce enquanto eu me aproximo, ele não cessava de se perguntar. Até que descobriu. Ao continuar avançando na estrada e conseqüentemente se aproximando da voz as palavras foram como se solidificando e formando frases. Frases bastante ofensivas e dirigidas a ele. Além de uma série de insultos podia distinguir algo que o ajudou a montar um sentido. Algué o acusava de assassinato. E antes de se sentir ofendido (era um irremediável pacifista) sentiu um enorme sentimento de culpa. Matara um homem! Sim, uma cena se formava na cachola. Estava ali a agredir alguém sem face, espancá-lo e dar-lhe talhos com uma faca grande de cozinha. Quem era aquele homem? Por que diabos fazia aquilo. Aquelas lembranças eram mesmo dele? Quando realmente acreditou naquilo pensava como sendo verdadeiro (sem perceber a constante aproximação do dono da voz que insultava) foi pego de surpresa com uma violenta pancada no nariz. Um soco. De alguém surgia na neblina. Se pensasse em inglês teria tido tempo para pensar "What the..." antes de ser novamente atingido. O agressor continuava a ofender-lhe enquanto o enchia de socos e pontapés a esmo. E no meio dos insultos e acusações ele conseguiu distingüir uma palvra que parecia resolver parte daquele estranho quebra cabeça. O homem o golpeara e gritara em seguida:
"Suicida!"
A cena lhe voltou à mente, mas agora, apesar de continuar sentido que era o agressor, via seu rosto estampado na face do molestado e enxergou o próprio corpo sem vida num canto escuro que tanto podia ser um quarto quanto uma sarjeta. mas aquilo estava errado. Fora morto por alguém, não havia se matado. Não merecia aquele castigo. uma enorme fúria lhe cresceu no peito e explodiu numa frase de negação:
"Suicida não! Afasta-te criatura imunda!"
por mais teatral, tolo ou mágico que aquilo pudesse parecer, aquelas palavras tiveram um efeito assustador sobre o atacante. Este foi rpelido como se fose ligado sobre ele uma mangueira de alta pressão que o arremessasse longe.
Ao voltar pra dentro do
fog, desapareceu, assim como sua voz.
"Então eu estou morto..." repetiu pra si encarando agora com um olhar um pouco mais crítico a própria situação. Se seus parcos conhecimentos religiosos estavam corretos devia então estar vagando pelo umbral ou coisa que o valha. Mas algo no fundo de sua alma (não havia de ser o fundo de mais nada) despertou uma lembrança quase cômica dum famoso livro que estivera a folhear há algum tempo: a Divina Comédia! E foi com uma expressão entre heroíco e cínico que fez sua próxima frase:
"Só me resta atravessar a colina!"