Bom Dia Mundo Cruel!
 

 
Pois quem pode comer, ou quem pode gozar melhor do que eu? (Eclesiastes 2, 25)
 
 
   
 
19.5.06
 
::Metalinguagens da vida::

Ele estava dependurado na janela do quarto, observando enquanto ela ia e vinha pelo quintal carregando trouxas de roupa lavada. Era arriscado fazer aquilo, se sentar bêbado na janela do quinto andar, só pra ver uma moça que nem tinha certeza se era casada ou não. Sempre tivera essa mania, a de se sentar nas janelas, fazia isso desde antes de começar a beber, quando ainda era um moleque, e ficava espiando as nuvens ou a lua, ou uma discussão. Era sua forma segura de enxergar o mundo, era um hábito, era um vício.
Um vício que acabou casando com outros, sua adoração por vinhos e sua predileção por trip-hop. Era um ser humano completo quando podia assentar-se a janela, desligar as luzes e ficar ali perdido, bebendo e ouvindo os estalos eletrônicos de seus milhares de conjuntos musicais.
Mas nesta específica noite, não havia música. Há alguns dias, descobrira na rua algo que o faria abandonar esses vícios e mais os outros que acumulasse ao longo da vida. Descobriu o vício maior, o deleite supremo e o estranho prazer guardado na saudade que sente do futuro, das coisas que nunca aconteceram. Ele a viu na rua, chegando com algumas sacolas, o corpo esguio numa saia rodada, o cabelo num coque e o ar de quem acaba de sair do paraíso. Foi mágico. Foi instantâneo. E eram vizinhos. Ele não se ofereceu para ajudar com as compras, não acenou, não nada. Ficou ali, bebendo a imagem perfeita da mulher por quem se apaixonou destrancar com dificuldades a porta do prédio e subir para o seu próprio esconderijo.
E agora estava ali. Noite clara e quente, ela passava pendurando roupas molhadas num varal de nylon, guardando roupas secas numa bacia, sem notar que era idolatrada de longe. Seu perfume era adivinhado, suas formas acertadas e desejadas. Ele queria aquela mulher. Ele poderia pular dali só para que isso os aproximasse. Ele estava bêbado e feliz com suas constatações platônicas.
Toca a campainha. Ele desce meio desajeitado da janela, acende a luz vai abrir a porta. Era sua esposa. A vida volta ao normal.

10.5.06
 
::Nova carta à Marol::

Oi Marol!
Eu não me esqueci de vocês. Tenho sido um relapso, mas tenha certeza de que sempre oriento meus pensamentos à vocês três e à sua felicidade. Assim que der passo aí pessoalmente para apertar as bochechas do Rafael.
A vida aqui está braba. Esse negócio de formatura, a cada ano, parece ficar pior. Quando a gente se forma no pré-primário, não tem nem idéia de que a cada formatura mais sofrida e cheia de atribulações a vida se torna. Cada uma dessas formaturas traz suas características próprias. Essa agora me transformou de estudante proeminente em um inútil que não exerce a profissão. Mas estão pululando uns concursos, em um ou outro eu acabo passando.
Continuo aqui vendendo acrílico, morando no cortiço e andando de ônibus. E continuo carregando minha inseparável mochila nas costas, como aquelas crianças que insistem em arrastar seus brinquedos, como os poucos contatos que lhes restam com seu mundo interno de fantasias, apesar de todos pensarem que esse contato não lhes falta.
Tenho lido excelentes livros também. O último foi "A vida e as extraordinárias aventuras do soldado Ivan Tchônkin" de um autor russo de nomes impronunciáveis. Se o Manguevs ainda não tiver lido, ia adorar! Mas pra você, indico o que eu tenho indicado pra todo mundo desde que li, por ser um dos mais maravilhosos livros pelos quais já passei os olhos: "O jogo da amarelinha" de Julio Cortazar. Qualquer informação que eu der sobre o livro só vai deixá-lo menos interessante porque seria destituída da habilidade mágica que pertence ao autor... leia esse e depois me conte.
O outro grande prazer que ainda ocupa grande parte do meu tempo é a música, mas não tenho muita coisa a acrescentar além do meu recente vício por jazz. Tenho ouvido muito Charles Mingus (que aliás, está emprestado com o Feliz), Charlie Parker, Benny Goodman, Chet Baker e uma infinidade desses fantasmas desconhecidos que deveriam ser cultuados e respeitados por motivos que ficam claros depois que a gente põem os ouvidos no bom trabalho que todos faziam quando vivos. E há sempre o bom e velho rock and roll. Estou aqui ouvindo "The Smiths" enquanto lhe escrevo. "Heaven knows I´m miserable now".
Me lembra muito a rotina aqui no trabalho.
Eu me pergunto por você todos os dias. Como será sua vida hoje? Você representa pra mim a síntese de todos os nossos destinos. De adolescentes sonhadores e unidos por laços sentimentais indissolúveis a adultos estruturados e de família constituída e finalmente apartados uns dos outros. Imaginar isso aos quinze me aterrorizava, hoje penso nisso com aquele meio sorriso de quem receia um pouco gostar muito de uma idéia.
Nessas horas eu queria que você tivesse um blog, ou uma câmera digital pra atochar um fotolog qualquer com fotos do seu cotidiano, do Alexandre, do Rafael, dos pais do Rafael. O que é ser mãe? Meu Deus, o que é ter um filho? Tudo aquilo que imaginamos realmente acontece? Existe um outro grau de amor que nos é negado até que criemos o ser que pode despertar esse sentimento que nos foi negligenciado por Deus?
No fim, o poeta tinha razão "filhos, melhor não tê-los/ Mas se não temos, como sabemos?"...
E por enquanto é isso. Mais que isso, só ao vivo.
Eu não me esqueço.

Rodrigo

 

 


   
  This page is powered by Blogger, the easy way to update your web site.
perdendo tempo

 

Home  |  Archives