Bom Dia Mundo Cruel!
 

 
E o resultado?/ Para eles a vida vivida ou sonhada,/ Para eles o sonho sonhado ou vivido,/ Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto.../ Para mim só um grande, um profundo,/ E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,/ Um supremíssimo cansaço,/ Íssimo, íssimo, íssimo,/ Cansaço.../
 
 
   
 
25.8.06
 
::Um menino caminha...::

As pessoas acordam com todo o tipo de sensações diferentes, algumas com uma disposição imensa de concluir projetos e executar idéias. Podemos responsabilizar por isso o clima, pois é muito melhor agir conforme sua própria vontade quando temos sol e brisa ao nosso favor. Sendo recente ou antigo, o plano estava sendo posto em prática após a última xícara de café.
O homem se levantou, limpo e perfumado, para sua caminhada até uma distribuidora de embalagens. No caminho cumprimentou um vizinho, não muito efusivamente, mas com a cordialidade que lhe era própria e ao atingir a rua foi impossível esconder a ampliação de sua satisfação por ter escolhido um dia tão belo para tomar uma decisão tão importante. O embrulho adquirido na distribuidora era leve, porém desajeitado, atabalhoando o caminho de volta e dificultando o atravessar de ruas. Era como uma grande folha de papelão, envolta em papel de embrulho para se proteger de quaisquer intempéries, por mais pecaminoso fosse pensar nelas naquela manhã.
De volta à casa, o homem levou o embrulho até o quarto e tirou-lhe o papel, dobrando-o e colocando-o com todo o cuidado dentro da lixeira. Voltou ao quarto e transformou a grande folha de papelão em uma caixa grande. Grande o suficiente para conter um homem.
Foi ao quarto de despensas e voltou com um pincel e uma lata de tinta vermelha. Escreveu algumas letras, guardou pincel e tinta e voltou ao quaro, onde se assentou apreciando a caixa.
Após alguns minutos de contemplação, se levantou e entrou dentro da caixa, deitando-se ao fundo. Sua completa solidão e o feriado seriam a garantia de que não seria incomodado na execução deste pequeno projeto particular.
O sol entrava por uma fresta da cortina, deixando uma meia luz no quarto e ele sentia o cheiro e a textura do papelão, enquanto se ninava com o pulsar calmo de seu coração.

22.8.06
 
::Mas afinal de contas...::

A trilogia "quem eu fui, quem eu sou, que eu serei" começa aqui.

Meu nome é Rodrigo e ainda me lembrar de meu próprio nome me traz algum conforto.
Eu já fui duas coisas, uma criança e um adolescente. Hoje eu sou um pequeno adulto.
Como uma criança eu aprendi que todo mundo sofre. E que sofrer não faz de ninguém diferente ou infeliz. Fui uma criança feliz. Tinha crises absurdas de asma/bronquite/e todo tipo de alergias que podem acometer crianças. Não podia correr, não podia comer chocolate, não podia brincar com tinta ou rolar na terra. O que acabou fazendo de mim uma pessoa fisicamente fraca. Eu tive muitos brinquedos de solidão, tipo Comandos em ação e cavaleiros do zodíaco e herdava os video-games velhos dos meus primos ricos. E tinha poucos brinquedos de grupo, como jogos ou artigos esportivos, porque eu não podia ter amigos fora da escola. Meus brinquedos me ensinaram a dialogar com os objetos inanimados para procurar minhas próprias respostas na falta de outra companhia e as habilidades magníficas que eu os conferia eram uma forma de me ilimitar também.
Tive muitos amigos na escola durante minha infância. Lembro o nome de alguns de meus amigos do maternal, a Camila, a Tanê (que era chinesa) e o Diego, que era meu melhor amigo na escola. Meu melhor amigo de verdade era o César, meu primo. Minha família nos criou muito próximas porque apesar dele não ter as limitações asmáticas que eu tinha, era filho único de pais ciumentos, logo, meu companheiro de brincadeiras familiares.
Eu acreditava na magia. Acreditava que havia nascido para cumprir um destino maior e que ao envelhecer eu me transformaria num mutante ou super-herói e iria salvar um mundo que eu não compreendia, mas que já se mostrava torto e doente aos meus olhos.
Meus pais brigavam muito. Minha mãe brigava muito aliás, com tudo. Mas o divórico só aconteceu porque meu pai arranjou outra pessoa.
O divórcio dos meus pais me deixou triste, mas ao contrário das outras crianças eu sempre fui muito individualista e acreditava que eu não tinha direito de votar ou exigir o convívio e o amor dos meus pais. Eu me provei certo ao longo dos anos, uma vez que nenhum dos dois me abandonou e eu continuei a ter um pai e uma mãe.
Apesar disso, quem fazia as vezes de meu pai em grande parte do tempo era o Chico, pai do César.
Eu gostava muito de ler. Mas literatura leve, Coleção Vaga-Lume, Ziraldo, nunca fui um menino prodígio. Mas mesmo assim, acho que isso me ajudou a desenvolver um senso de humor crítico que parece ser a única constante durante toda a minha vida.
Eu fui um menino bonzinho e as pessoas gostavam de me ter por perto.

3.8.06
 
::Olha! Lá vejo meu pai!::

A música vinha de uns trinta anos atrás pra ajudar o conhaque ruim turvar as idéias dos dois. O momento era único, por mais que se repetisse indefinidamente ao longo dessa amizade de uns poucos anos. A consciência de que provavelmente seus pais faziam a mesma coisa (exatamente a mesma coisa!), com as mesmas músicas e a certeza de que não - eles não faziam, só em seus sonhos - é que tornava tão emocionante o evento. Era a evolução. Por mais estranho que fosse admitir isso, sempre gostaram de ser as versões 2.0 dos pais, com a ampliação do gosto, a ampliação da liberdade, a ausência de suas mães como mulheres que governavam suas vidas (as deles e as dos pais). A música continuava e o nível do conhaque "down in bottle- up in the head" ampliava os devaneios. A coisa jorrava naquela linguagem mascada única, que os adolescentes metidos à poetas desenvolvem pra mostrar o quão universamente sentimentais eles podem ser. Estão resolvendo agora o problema da fome no mundo. A solução era tão simples, que se sentiam mais imbecis só por viverem num mesmo planeta com tantas pessoas imbecis e sem capacidade ou criatividade para bolar as mesmas soluções. Por que Deus não fazia algo sobre a fome do mundo. Se Deus fosse cristão essas coisas todas não aconteceriam. Mas quem era Deus mesmo? Deus é amor e o amor é uma dessas doenças das quais sofrem os homens que não têm feito sexo com um determinado número de mulheres. O amor é bem mais do que isso, é o sentimento sublime e perfeito que tem, até certo ponto, ajudado a manter coesas algumas estruturas fudamentais para a sustentação da sociedade. O amor é o caos que impede o caos. O caos é tudo, porque tudo está mudando, subindo e descendo. A visão turva começa a caotizar o quarto, que sobre, desce e gira diante dos olhos. A música acaba, muda-se o cd.Meu Deus, esse que aí canta, morreu. E morreu antes de qualquer um de nós nascer. E era bom. Era perfeito. Era Deus. Não existe mais música como essa que se fazia. A música muda, o caos determina. Por que diabos a música nos faz chorar? Por culpa do álcool. Maldito seja esse conhaque! Bendito seja esse conhaque! Um brinde! À música! Ao conhaque! À Deus! Ao conhaque! Meu Deus como estamos bêbados! Me dá um abraço!

 

 


   
  This page is powered by Blogger, the easy way to update your web site.
perdendo tempo

 

Home  |  Archives