::Houve um tempo de inocência::
Ela também gostava de Legião Urbana, mas acho que eram motivos diferentes. Eu gostava de Legião por ser triste, sozinho e isso se expressava muitíssimo bem com Renato Russo. A realidade era aquele amontoado de mentiras das quais temos saudades e sobre as quais pensávamos por não ter qualquer outra responsabilidade ou função enquanto seres vivos. Combinava com a Legião Urbana. O mundo se desvelava hipócrita e cruel, os dias se arrastavam, os hormônios nos faziam cheirar mal, mas um mal muito bom. Assim como a Legião Urbana. A Legião sempre acompanhou meus caminhos adolescentes, recheados de maus-momentos e pesadelos. Havia sempre um verso que explicava o mundo, uma melodia que saltava em minha mente e pincelava uma situação que muda já era infeliz o bastante.
Ela não. Elas gostava de Legião Urbana porque não entendia absolutamente nada de música ou de poesia. Considerava Dado Vila Lobos o maior guitarrista da história do Brasil. Achava uma maravilha cantar Faroeste Caboclo e falar os palavrões salpicados na letra. Legião era diferente da música sertaneja que eu sei que ela ouvia. Era longe de toda aquela bobagem Baiana que despontava. Pra ela, todo o universo rebelde e melancólico era uma coisa característica da banda e não da vida. Aquilo lhe era complexo, empolgante, alienígena e bonito. A tristeza da Legião Urbana era a felicidade da Urbano Legio omnia vincint. Uma coisa ridícula. Mas ela era mais feliz que eu.