Bom Dia Mundo Cruel!
 

 
I am the son and heir of a shyness that is criminally vulgar
 
 
   
 
30.6.07
 
::Quero ser John Malkovich::

Quando se assiste a um filme, desenvolvemos uma ligação com a história chamada diegese. A diegese é a ilusão criada pelo cérebro que faz com você acredite nas coisas que vê e ouve, o que faz seu cérebro liberar emoções de acordo com o que a história conta. É por culpa da diegese que os filmes de terror o assustam, que os suspenses deixam você tenso e que a pornografia te excita. Vários filmes usam processos de quebra de diegese (normalmente através da metalinguagem), mas normalmente quando isso acontece, quando não existe esse laço entre o espectador e o filme, quando a cena de terror nos faz rir ou quando o herói sobrevive a algum acidente fatal de forma miraculosa e ridícula, tachamos o dito filme de horroroso.
Eu tenho sérios problemas com essa história de diegese porque me entrego demais a todo tipo de situação fantasiosa ou real. Herança certa das explosões emocionais de mamãe e das infindáveis tardes de RPG, onde tínhamos nada além de folhas de papel e imaginação. Filmes de terror me apavoram, romances me fazem chorar. Como não é bom para um homem do meu tamanho se debulhar em lágrimas a todo momento em que o Richard Gere lança uma frase de efeito ou quando Meg Ryan faz uma carinha de choro, tenho meus truques. Quebro a diegese olhando pro lado, pensando na vida, lembrando das minhas coisas e insitindo pra mim que tudo que se passa na tela é só ilusão, um amontoado de pixels e barulho.
Mas eu preciso da diegese hoje. Hoje (ontem e anteontem e provavelmente amanhã) eu queria poder deixar de olhar pra minha vida, fazer de conta que ela simplesmente não existe, não acontece, que a tristeza não me é fiel como um cão seria, que esse abandono simplesmente não acontece. Eu quero me alienar e me prender numa tela de quatorze polegadas, num enredo de comédia romântica, onde as coisas acabam bem e as piadas são feitas aos montes, mesmo que ruins e fracas. Eu preciso de um filme, uma música que me aprisione, que me arranque de mim. Eu quero me enclausurar na fantasia, como única forma viável de me desviar de toda a angústia e melancolia e ódio e incompreensão que me perseguem, que me esmagam.
Hoje eu queria a diegese, eu precisava dela.

29.6.07
 
::BOM DIA, MUNDO CRUEL!::

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade

(Bom conselho - Chico Buarque)

PS: eu sei.
 
::E é grave, doutor?::

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber
já não pode fumar,
cuspir já não pode
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?


E de repente você acorda e descobre que é uma pessoa tão comum e vazia e de comportamentos paranóicos e previsíveis quanto todo o resto.
Onde foi que eu guardei aqueles malditos superpoderes?

2.6.07
 
::Long search...::

O problema maior em se ser analfabeto é a dificuldade de buscar poesias de autores que dominam completamente a língua portuguesa. Há alguns poucos anos venho procurando, sem sucesso, por um poema da Hilda Hilst (que me foi apresentado pela Marol) e a total incompetência vocabular me desviava do dito. Num surto gramatical psicótico, escrevi no google "trêpega trôpega trêpegos Trôfegos Trêfegas" até achar a poesia de título muito mais simples: araras versáteis.
É lindo. É pornográfico. É absurdo.

Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.


(Araras Versáteis - Hilda Hilst)

 

 


   
  This page is powered by Blogger, the easy way to update your web site.
perdendo tempo

 

Home  |  Archives