20.10.07
::Ideais::
Documentário mal e porcamente assistido sobre os festivais de Glastonbury. Inclusive, antes do fim a idéia deste texto me trouxe até aqui.
O festival possui uma certa congruência estética. NO princípio, nos anos sessenta, setenta, tínhamos vários hippies nus, usando drogas e fazendo sexo, enquanto se conectavam com a música psicodélica emanante dos palcos. Já ao final, nas últimas edições, temos um bando de meninos muito ricos, nus, usando drogas e fazendo sexo à mesma moda. O festival mudou? Substancialmente. Radicalmente. Absurdamente e (por que não?) escatologicamente.
Pode-se escrever uma tese sobre a mudança da música, sobre o abandono da psicodelia, sobre o abandono do rock, sobre a prostituição cada vez maior dos grupos musicais e da música pop.
Mas não tenho competência nem paciência para escrever essa tese agora. Vamos falar de gente pelada.
Existe um motivo para que as pessoas fiquem nuas em Glastonbury, ou vários motivos, mas se transformaram ao longo dos anos. Os hippies ficavam nus, faziam sexo em público e usavam drogas por um motivo libertário. Todos faziam parte de um mesmo nicho, um mesmo espaço cósmico, uma grande fraternidade. Ninguém deveria se ressentir, ninguém precisaria se esconder. O sexo era feito em público em nome do respeito. Haviam acampamentos espalhados por toda a fazenda e neles as crianças circulavam livremente pelos adultos. Não vou utilizar o termo "inocência" para o que acontecia ali. Todos sabiam o que estavam fazendo e sabiam o caráter transgressor de cada um daqueles atos. Eles enxergavam o amor e o desprendimento como uma ferramenta de mudança, de choque. O excesso de intimidade tinha o propósito de gerar a ausência de intimidade, enquanto conceito. Todos deveriam ser como irmãos.
Não funcionou, é claro. Provavelmente até mesmo eles eram egoístas demais para aceitar essa filosofia tão intensa e radical. Mas era um bom propósito.
Hoje as coisas ocorrem pelo motivo oposto. Não existe uma vontade de comunhão, mas de exclusividade. Não há movimento transgressor. As meninas levantam as blusas ao passarem perto de alguém com uma câmera ou filmadora. Os rapazes fazem sexo em coreografias que demonstram o quão competentes são, enquanto machos, fazendo sexo ao ar livre.
O que antes era uma forma de se desprender do ego, virou uma celebração a ele, à superexposição. Uma festa do estrelismo, da exibição e do fetiche (tá, a parte do fetiche é legal).
Eu me sinto um sujeito das antigas. Eu não queria precisar de um ego. Nunca me senti à vontade com algumas pequenas convenções, regrinhas que nos são impostas. Mas o sistema contra o sistema me coibe. Eu me torno uma diva, um exibicionista e um voyeur caso aja de acordo com algumas de minhas naturezas. O sistema venceu porque me alienar do ego é me render ao sistema. Ele alcançou todas as esferas, todos os cantos. O jeito é subvertê-lo de dentro pra fora.
Só não sei como.
::Homem-Aranha e semiótia::
Aluguei o terceiro filme do Homem-Aranha. Não é horrível como se dizia. Tampouco um grande clássico do cinema. Creio que os que ainda não assistiram deveriam fazê-lo, me pareceu importante. Deixo um resumo do roteiro na tentativa de cativá-los:
O Homem-Aranha é um sujeito atormentado pela sua condição mas que ama sua namorada, Mary Jane. Simplesmente ser o Homem-Aranha já o afasta demais dela, da vida dela e das angústias dela.
Ele não percebe isso. Ele acha que amá-la basta. Ele não se dá conta de que seu amor e suas ações não estão em sintonia. Suas escolhas o afastam dela cada vez mais.
Há neste filme a presença de Harry Osbourne, o Filho do Duende Verde. Após um acidente, numa luta contra o Homem-Aranha, ele perde a memória e volta a ser o melhor amigo de Peter Parker e de Mary Jane, por quem ele também é apaixonado.
Então, como ninguém esperava, Parker começa a agir de maneira egoísta demais, insensível demais, por não saber as escolhas que deve fazer, por se deixar levar pelos apelos de quem queria ver o Homem-Aranha, figura emblemática da liberdade e da salvação. Ele trai a confiança de sua namorada, Mary Jane, num dos momentos mais cruciais de sua vida, quando queria ter proposto a ela que se casassem.
E quando ela está mal pela traição de de Peter, busca refúgio nos braços de Norman, o melhor amigo do protagonista. Porque ele a ouve,ele a entende e ele é carinhoso com ela. Ele consegue disfarçar, esquecer a loucura que tem dentro de si para ficar bem com ela. Mas isso não dura. Ele desperta e resolve que seus objetivos são mais importantes. Sem medo, sem remorço e numa ação estranhamente baixa, ele magoa Mary Jane e a obriga a Destruir a alma de Peter Parker, dizendo que está apaixonada por outro, que pretende ficar com ele.
Para o resto do filme não há semiótica. Os vilões são exorcizados, perdoados, aniquilados. Peter e Mary Jane irão ficar juntos ao final.
16.10.07
::Though of you as everything I had but could'nt keep::
Eu hoje acordei tão só
Mais só do que eu merecia
Olhei pro meu espelho e "AH!"
Meu grito não me conhecia
E eu acho que será pra sempre
Mas sempre não é todo dia...
Estranho é pensar que eu já consegui ser otimista com a letra dessa música. Ainda na mesma linha:
Se fosse resolver
Queria te dizer
Foi minha agonia
Se eu tentasse entender
Por mais que eu me esforçasse
Eu não conseguiria
E aqui no coração
Eu sei que vou morrer
Um pouco a cada dia
E sem que se perceba
A gente se encontra
Pra uma outra folia
Eu vou pensar que é festa
Vou dançar, cantar
É minha garantia
E vou contagiar diversos corações
Com minha euforia
E a amargura e o tempo
Vão deixar meu corpo,
Minha alma vazia
E sem que se perceba a gente se encontra
Pra uma outra folia
Mas minha música não alcança mais... não serve mais pra nada...
12.10.07
::Metrossexual enrustido::
Naquele tempo, não havia em Divinópolis muitas padarias com lanchonete. Uma ou outra adotava esse formato, mas me lembro de achá-las lugares assustadores e perigosos, não dignos de vender o pão nosso de cada dia. Talvez pela distância que eu mantinha das lanchonetes de padaria quando menino, me fascino tanto por elas hoje, aqui em BH.
Isso é culpa do meu tão famoso e combatido voyerismo, cultivado desde antes de programas como "Papai Hoogan sabe tudo" ou "Girls of the Playboy Mansion". Gosto de estar em lugares e perceber as interações, os diálogos, o que há de pitoresco e de comum, a beleza da estética cotidiana, nome bonito que vi num texto acadêmico há pouco tempo. Aliás, esse texto foi revelador pra mim, porque eu nunca me soube fazendo isso. Fazia porque era divertido, excêntrico e besta sentar num banco de praça ou bancada de padaria pra ouvir as pessoas ao redor vivendo.
De agora em diante, faço porque sou um intelectual, um poeta. Graças à Deus existe a literatura acadêmica pra dar títulos importantes aos vagabundos, aos imbecis e aos xeretas.
Hoje eu acordei às cinco e meia da madrugada pra acompanhar meu irmão à rodoviária. Fomos até lá de ônibus, com sono e carregando a bagagem. Eu não sou um sujeito tão bonzinho. Fui porque precisava que ele levasse uma mala inteira de coisas minhas. Depois de embarcá-lo, resolvi que seria ótimo voltar andando pra casa, pra inocentemente exercitar aquela capacidade de observar as pessoas. E claro que eu pensava em entrar numa padaria pra tomar um xícara de café e perceber gente vivendo.
Foi uma ótima caminhada. E café estava forte, o que eu aprecio muito. E obviamente entrou um velhinho mal-humorado brigando com a atendente sobre uma garrafa de café que ele havia levado até lá pra comprar o café dos pedreiros. Ele alegou que quem quer que fosse que encheu a maldita garrafa, desmontou-a toda, colocando café no espaço entre o plático e o vidro e destruindo o isolamento térmico daquela garrafa (que era, claro, a melhor garrafa de café no mundo, capaz de manter o dito quentinho e saudável por oito dias, na geladeira). Ele usou uma justificativa original e uma espécie de preconceito que eu considero incomum para homens rabugentos com mais de sessenta anos de idade: aquilo havia acontecido porque um homem executou a tarefa! Porque homens não sabem fazer nada direito. Não usam a cabeça. Só servem pra capinar lotes, pra varrer rua. O serviço de uma lanchonete deveria ser feito exclusivamente por mulheres. E ele aponta pro rapaz detrás do balcão (que ironicamente passava um cafezinho naquele momento) e grita "Aposto que esse infeliz aí nem sabe o que é uma garrafa de café!"
Tá, olhando daqui não parece ter sido tão legal. Porque eu não posso explicar a expressão de indignação do velho com a atual divisão sexual do trabalho, não posso explicar a jocosidade da expressão das atendentes. Nem a alegria dos fregueses que, assim como eu, souberam apreciar aquela cena sublime de entrega e comunhão do velhinho com o universo. Ele era ele, sem medo. E isso era muito bom e muito engraçado. Sai de lá imaginando o que ele diria se soubesse que eu já havia trabalhado com educação infantil. E que era ótimo saber que meus lotes têm andado capinados...
9.10.07
::Taken down with hearts alive
Our hearts alive::
As luzes não se apagam. Os olhos não se fecham. A TV brilha. A TV é o sol, o céu e por um tempo é aquele amigo que ouve, mas não entende e que fala para lhe distrair. A TV completa. Todos os pixels dançando ao longo da madrugada. Desligue a mente, desligue a mente, desligue a mente.
De repente você afunda dentro de si e pensa: “Oi, você sumiu...” mas isso não adiantou. Você sumiu, mas continuou sendo caçado. E sendo presa fácil. Porque quem está caçando é você. E você é vingativo.
Depois vem o mundo. Te atropela. Dói. Você grita, o mundo olha pra trás. “Ele me viu, vai me ajudar”. E ele te atropela de novo. E de novo. Não deixe de se mexer. O movimento sana. O grande movimento liberta. O movimento. MOVIMENTE-SE HOMEM! Você volta pra frente da TV. Fica muito tempo se perguntando quem gritou e mais uma porção de coisas.
Não adianta, ela já disse que não lhe ama e quer ficar comigo. Se é assim, então não adianta mesmo. Mas se não adianta, porque a TV continua ligada? Porque os mergulhos?
Você pensa em como é irônico as pessoas acharem que você irá se matar... como é irônico alguém olhar pra você e achar que você ainda está vivo...
MAS VOCÊ ESTÁ VIVO. SE NÃO ESTIVESSE VIVO, NÃO HAVERIA DOR. Você volta ao fundo da piscina. Agora você começa a reconhecer a voz de quem gritou. Reconhecer qualquer coisa já é uma anestesia leve. Não sofrer já é uma forma branda de felicidade. VOCÊ VAI PARAR DE SOFRER. “Tomara” é a palavra mais otimista que lhe vem à mente. Você volta. A TV continua ligada. Você se perde por mais uma ou duas noites. O mundo volta. A vida dá-lhe um nó. Mas você confia nas palavras. E você duvida das palavras. E você já não sabe de nada.
Afasta de mim o cálice pesado da sua presença.
E de mim também, por favor.
Eles dedicam sua vida a fugir da vida dele, ele tenta os agradar, esse homem amargo que ele é. Você prometeu que não iria repetir esses versos. Prometeu a quem? Prometeu à você e você é uma pessoa que acredita no amor. No amor de quem? No meu. No de Deus. E talvez...
Mas não adianta, ela disse que não te ama e que quer ficar é comigo.
ISSO NÃO IMPORTA. O que não importa, afinal? O que não importa, meu Deus. Não importa a frase, não importa a semiótica? Não importa o que pensem.
Troque os versos. Você não é amargo. Você não é mais amargo. Está perdido, confuso e nu, mas a dor é a garantia de você está vivo, você sente e você não é amargo. Você não é indiferente à dor, nem às frases. Troque os versos. É a verdade que assombra, o descaso o que condena e a estupidez é o que destrói. Eu vejo tudo que se foi e o que não existe mais.
Tenho os sentidos já dormentes. O corpo quer e a alma entende, pois essa é a terra de ninguém e eu sei que devo resistir.
Eu quero a espada em minhas mãos...
Já são bons versos. Mas não são perfeitos. Nada é. Tudo vem e tudo vai. Aos quinze anos você descobriu que se constrói e se destrói e que a essência de tudo estava em saber o que construir e como não destruir. Seu sonho sempre foi o de proteger tudo o que estava construído e plantar seus jardins. Você já sabe quais as flores quer plantar. SE VOCÊ AINDA CONSEGUE SONHAR, NÃO HÁ O QUE FAZER AQUI. FIQUE ONDE ESTÁ. Fico. Fico e espero. Van Gogh era um gênio, mas não conseguiu compreender todas as saídas mesmo tendo todas as ferramentas nas mãos.
Os versos mais bonitos me guiam. E um homem são e um doce olhar vão renascer. E o amor já vem. De manhã, quando acordar. Acordei devagar.
8.10.07
::Passarinho quis pousar não deu, voou::
Sexta-feira não. Mas Sábado com certeza e Domingo também. Domingo foi mais cedo que no Sábado. Provavelmente porque no sábado não podia ser assim sem preparo, havia de haver uma conversa longa e triste antes. Domingo um latejamento continuou profundo até do noite, talvez até depois da hora de dormir... e eu não dormi direito por causa disso.
Claro que eu me comparo. Claro que eu lembro dos meus sábados e domingos. Do universo paralelo. De quando eu também arriscava matar serviço. Da parte boa, The Better Half. E aí tudo que estava resolvido, se desresolveu.
A conclusão bonita do Final de semana é uma música do Renato Russo que dizia " Quando não estás aqui, tenho medo de mim mesmo/.../Quando não estás aqui, meu espírito se perde/ Voa Longe..."
7.10.07
::Da série: "eu preciso estar dormente"::
Eu sei. Eu sempre sei. Eu sinto. Eu ouço e vejo se me esforçar um pouco, quase um nada. Esse é o lado muito chato da empatia. Saber os sentimentos, saber as intenções, conhecer as mentiras. Bonito ia ser se ela servisse só pra dar conselhos, colocar as pessoas em contato com as coisas que as atrapalham e que elas poderiam resolver me estendendo a mão. Saber tudo não é bom. Ouvir tudo não é bom, eu sei porque eu ouço. Ouço no fundo da minha mente as outras mentes e a sua mente. Sinto o que vocês, seres humanos, sentem. E às vezes, como agora, sentir a felicidade, os espamos, entender os sorrisos, é excruciante.
Perdão, Deus, por eu saber e ver e sentir tudo isso. Perdão por ser um médium dos vivos.
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