Bom Dia Mundo Cruel!
 

 
I am the son and heir of a shyness that is criminally vulgar
 
 
   
 
27.11.07
 
::Carta à Mariana::

Tá, você tem razão.
É intervalo e logo depois o grupo, que acaba de apresentar um seminário vai fazer análise do discurso do "Ilha das Flores". Não tem como não achar isso fantástico. Não tem como não se apaixonar por isso. Por isso e pelo resto. Por ter descoberto que os preceitos malkavianos aos quais eu me dediquei tão apaixonadamente enquanto jogador de rpg são, na verdade, distorções da teoria semiótica de Pierce. Por entender que a luta pela afirmação do sujeito é uma coisa perdida, mas que existem pessoas pensando e discutindo o assunto. Entender que apesar da ironia de que ninguém vai, efetivamente, ler nada do que eu produzo (provavelmente o blog tem mais leitores do que uma suposta dissertação que eu vier a produzir), o que for escrito vai ser escrito com um propósito que irá de certa forma se mesclar com a realidade. Até mesmo as limitações intelectuais dos colegas chegam a agradar porque mostram que apesar de tudo, eu posso alcançá-los e ultrapassá-los fácilmente.
Ou seja, você tem razão, eu faço parte do grupo de pessoas que pensam e que devem produzir conhecimento, assim como você mesma. Você tem razão quando diz que todo o turbilhão de dificuldades existe em função dos outros problemas da vida que acabaram prejudicando minha forma de me relacionar com o resto. Você tem razão quando diz que eu lutei por estar aqui e que deveria seguir por aqui mesmo.
Mas eu vejo mais que isso. Infelizmente, claro, mas eu vejo outras coisas. Eu me vejo deslumbrado diante desse universo de conhecimento, de glória, de pensamento e assumo uma postura passiva diante de tudo. Por que essa passividade? É sobre essa mesma dúvida que eu estou debruçado em todos os instantes em que penso nos horários de aula, nos momentos solitários na biblioteca, quando rabisco insesantemente nas folhas de rascunho da biblioteca. Apesar de não me fechar a nenhuma conclusão, desconfio que a passividade seja uma inerência a qualquer um que não consiga produzir. Você se lembra do Pai do Lucano, um "mero guarda livros" que decorava textos filosóficos sem se aprofundar nas discussões acerca da filosofia? Um homem bom e esforçado, que possuía um filho muito melhor que ele mesmo, uma mulher fantástica que ele mesmo sabia não merecer, mas nenhuma capacidade de articular tudo o que tinha em realização ao conhecimento? Ele amava o conhecimento, tinha acesso a ele, mas era intelectualmente incapaz de produzir conhecimento.
Eu tenho sido um homem bom e esforçado nessas últimas duas ou três semanas. Bom, esforçado e limitado, como sempre.
Mas não desisto. Vejamos o que a vida me reserva.

Beijos, muito obrigado por ter seguido até aqui.

19.11.07
 
::Em nome do filho que eu não tive::

Acordou, tomou seu café. Forte, muito forte. Escovou os dentes e sentindo o gosto do próprio hálito considerou o gesto inútil. Não faço de novo. Saiu para o trabalho. O ônibus demora. As pessoas não pensam sobre ele. As que se dão o trabalho de pensar, se sentem levemente incomodadas como quando vemos um cão sarnento ou um mosquito. Algo de que não se gosta, mas pouco importante para merecer até mesmo asco. Ele é como as pessoas. Ele não suporta o fedor humano. A humanidade não presta. No caminho, uma mulher vomita no ônibus. estava grávida. Não se sabe por qual desejo maldito, às sete horas da manhã havia bílis e macarrão em diálogo constante com o olfato de quem estivesse ali dentro. As pessoas odiavam a mulher. Ele odiava a mulher. Mas era bom, o cheiro terrível transformava os passageiros numa equipe, cujos objetivos eram resistir à viagem e odiar a mulher. Ela se sentia mal, pequena. Sentia ódio do filho que a colocava na condição de ser odiado. Sentia ódio do marido que não iria carregar o filho durante nove meses e nem sofreria quando a suas (sempre as suas) entranhas fossem invadidas pelas mãos dos médicos e rasgadas pelo corpo de seu odiado filho. Os passageiros viam a mulher numa poça de vômito. A mulher via seu filho numa poça de vômito. Como a grávida era ela, o pensamento a fez vomitar mais.
Ele desce do ônibus. Está no trabalho. É automático. É vazio. Contém alguns sozinhos. Conte até dez. Por que perder tanto tempo com gente que não se importa se você vive ou morre? A canção estava coberta de razão. Os colegas de trabalho se odiavam. Todos, mutuamente, reciprocamente, ao mesmo tempo e com quantidades levemente diferentes, sempre balanceadas de acordo com quem estava ou não na saleta onde funcionava a loja. Não somos mais humanos. O dia inteiro pensou no vômito e na mulher. Pensou em quais castigos Deus teria atribuído a cada um dos miseráveis que lhe aporrinhavam em seu ambiente de trabalho. Deus é um cara muito benevolente.
É quase noite. Ele volta ao ponto de ônibus. O ônibus demora, vem cheio. O cheiro da humanidade é terrível a essa hora da tarde. O cheiro da cidade é terrível a essa da tarde. O cheiro do vômito, incrustado em seu nariz, é tão terrível quanto.
Nunca mais se esqueceu desse acontecimento na vida de suas narinas tão fatigadas. Vomitaram no ônibus.
A vida é uma merda. A vida é uma merda e eu tenho provas, pensou.

16.11.07
 
Charles Sanders Pierce acreditava que nunca poderíamos nos encontrar com a realidade, porque tudo que percebemos é senão uma filtragem desta realidade através dos nossos sentidos. O que percebemos, o que aprendemos é uma analogia ao que realmente existe e está fora de nós. O que significa que, ao contrário dos ideólogos do matrix, onde a realidade é um produto dos sentidos, ele crê numa realidade externa e imutável de onde nossa percepção tira o conhecimento. Um de seus argumentos à favor da realidade é a fato de que a nossa percepção se engana. Vemos uma coisa, sentimos uma coisa, ouvimos, mas essa coisa não está lá, nos enganamos. Existe algo lá para que coloquemos em contradição à nossa percepção, ao nosso julgamento. A realidade e o que percebemos dela se chocam, não são a mesma coisa.

A realidade é enxergada através do espelho da percepção. Mexer a mão na frente do espelho não é torcer a realidade. É preciso socar o espelho para entender que aquilo era apenas um reflexo, um espelho. O que muda são as pessoas. O real é real e imutável.

1.11.07
 
::Ele sabe das coisas::


 

 


   
  This page is powered by Blogger, the easy way to update your web site.
perdendo tempo

 

Home  |  Archives