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30.1.08
::Quarta feira, três da madrugada::
As palavras vinham lentas, arranhadas do fundo de sua garganta. O timbre grave, rouco e baixo, ajuntados ao olhar perdido lhe davam aquela impressão de quem, no meio de uma crise de tristeza, começa a devanear incoerentemente. E ninguém poderia negar que isso era o que estava acontecendo ali.
“Deus existe sim. E é uma questão de existência tão complexa, que assim como a luz existe enquanto partícula e onda, Deus existe dentro de duas possibilidades distintas. Deus existe como uma propulsão física, histórica, externa a nós todos. Um grande túnel que se percorre eternamente de um ponto de entropia a outro, provavelmente o mesmo. Deus existe porque as coisas existem, porque os homens criam máquinas e criam vidas e alguém deve tê-los criado para isso. E esse alguém deve ter criado o criador num caminho infinito que vai desde as criações das criações humanas e regride através dos criadores do criador dos homens. Deus é a própria existência e a perenidade da existência, que se aceita e se torce em função de si, de existir-se, de existir os outros. A vida sempre encontra um jeito, a realidade sempre encontra um jeito. Deus é a vida e o jeito pelo qual a vida se encontra, transcorre, muda, involui, evolui. Deus está no cosmo, nas novas, na tecnologia, na entropia e nas cartas de tarot.
Por isso é que eu acredito em um desígnio de Deus. É simplesmente impossível não fazer parte da determinação de tudo. Esse Deus é aquilo que foi, é e está por vir. Uma massa de destino caótica e consciente da própria existência como um todo real. Talvez se nós não nos relacionássemos tanto com o tempo, essa coisa particular humana para entender a realidade, poderíamos estar nos relacionando com Deus, que é a própria realidade, quem sabe. Por pensar assim, eu me tranqüilizo um pouco, eu me encontro um pouco dentro dos grandes propósitos da realidade, que quem diria, eram os químicos e não os filósofos, que trabalhavam melhor para entender.
Mas Deus não pode existir somente como esse éter externo que nos obriga a respirar e matar-mo-nos *. Ele há de existir também dentro dos fundamentos menores das vidas e das coisas. Ele há de nos orientar em meio aos nossos medos e é a providência divina que nos trás as coisas doloridas com as quais lutamos dia após dia. Eu fecho meus olhos lacrimejantes e peço a Deus um cafuné, uma brisa quente que me aproxime mais de todos os homens e torne a existência menos pesada e menos solitária. Deus governa nossas paixões, nos entope de esperanças fúteis e se comporta como um homem cheio das falhas que nos são tão comuns em nossa inteligência. E deve ser assim com os outros animais, um Deus à imagem e semelhança deles todos. Deus é perfeito como uma lembrança boa. Deus é perfeito como o passado ou os homens que já morreram. Deus é perfeito enquanto coisa longe, porque, das coisas de perto, podemos e vamos reclamar e nos ressentir. Mas eu não reclamo do Deus imperfeito, porque é ele que me acaricia os cabelos e deixa dormir sozinho, com frio.”
Isso dito, sua respiração se tornou pesada e espaçada. O sangue no chão já era um conjunto de placas pastosas e escuras, com cheiro forte de ferrugem. Sua boca se mexia um pouco, mas ela sabia que ele já não queria mais dizer isso.
Então, mais tarde, ela me contou essas coisas para que eu escrevesse. Eu mesmo não sei se isso seria um argumento conversor, evangelizador. Talvez porque eu não estivesse lá, sentindo o cheiro de ferrugem, vendo o sangue escorrer e aquele corpo estranhamente deformado tremendo e se contorcendo, deixando escapar alguma coisa que chamamos de vida.
*N.A.: Com o perdão da expressão
28.1.08
::Se X=y+3a onde {a E R/ a>2}::
Como é comum às crianças, meu primo começou a desenvolver seu pensamento abstrato. OU seja, ele aprendeu a fazer perguntas usando "e se". O que começou com algumas brincadeiras sobre defesa pessoal, "quando alguém tentar fazer isso com você, faça aquilo"ou "observe esse movimento de mão" acabou despertando a curiosidade dele para como as pessoas reagem em determinada situação. Começou a me perguntar como eu reagiria se alguém travasse meu braço assim ou assado ou como eu reagiria se estivesse amarrado, ou sob a mira de um revólver. A partir daí, talvez pra testar a minha sinceridade ou pra aliviar suas necessidades sádicas começou a elevar o nível de periculosidade e dificuldade das questões. "E se você estivesse completamente acorrentado e ameaçado por alguém segurando uma serra elétrica na altura da sua garganta?" "E se você fosse jogado num tanque de ácido depois de ter suas pernas e braços arrancados por facas de cozinha?" "E se você estivesse amordaçado e algemado sendo obrigado a ouvir um disco do Cansei de ser sexy?"
Me pergunto se posso me culpar por isso ou se todo mundo passa a se questionar sobre a humanidade e num determinado momento isso deixa de nos angustiar e isso que eu tenho é um problema clínico mesmo. Por via das dúvidas, pelo medo constante de acabar tornando alguém mais parecido comigo e por pensar demais em como as pessoas reagem nas mais diversas situações, achei melhor desencorajá-lo.
"Pensa comigo Eduardo. A palavra "se" é uma palavra inútil. Você não consegue nada através dela. Devemos nos ater às coisas possíveis e concretas. A gente trabalha as possibilidades dentro do universo daquilo que existe."
Meu exemplo foi com um ataque certeiro que ele me fez com uma espada de plástico. Eu segurei a espada e disse que não adiantaria perguntar "e se a espada fosse de verdade?", a espada era falsa e era por isso que eu a havia segurado com a mão. o "e se" só iria servir para dar a ele a falsa impressão de que eu poderia ser vencido por uma espada de brinquedo. E que quando ele estivesse segurando uma espada de verdade eu iria me preocupar no que fazer pra me proteger de uma espada de verdade.
Ele não entendeu muito, porque como eu disse, ele está apenas começando a desenvolver o pensamento abtrato. Mas eu fiz a minha parte para afastá-lo da trilha do filósofo de boteco.
Por que eu estou contando isso aqui? Porque o mundo é um lugar bacana, o destino é um sapequinha e hoje eu descubro que não tem nada mais concretamente importante na minha vida, do que um "se"...
12.1.08
::Perpetual love::
Infinito é uma grandeza relativa à uma quantidade qualquer de qualquer coisa. Um tamanho, um tempo, um peso. E ao amor, aplica-se o termo "infinito" pensando especificamente em peso, em tamanho. O tempo, aquela medida inventada, quando utilizada para ensurar o amor, mostra toda a sua ridicularidade e limitação de conceitual. Não há um espaço de tempo dedicado ao amor. O porquê, eu não sei.
Não conseguia se livrar das fotos dela. Guardava os bichos de pelúcia que recebeu de volta, cuidadosamente encaixotados. Todos os dias havia mais ou menos o mesmo ritual, envolvendo grandes quantidades de vinho, música triste, maldições. A cada dia uma promessa nova de extinção. Do amor, da tristeza, da vida. Nenhuma concretizada. Quando suas condições de locomoção se tornavam questionáveis sabia que era exatamente o momento de exercê-las e saía para intermináveis caminhadas, onde cantarolava com sua voz embargada as músicas que havia acabado de ouvir e bebia mais e mais, enquanto suas pernas e estômago o permitissem. O amor, a ausência do amor, a presença constante e esmagadora de um amor infinito faziam dele um homem sozinho. Um eremita isolado dentro de sua mente torcida. Ela nunca voltaria e isso o colocava num círculo vicioso de lamúria e solidão. Precisava dela pra ser feliz. Precisava ser feliz pra se fazer importante. Talvez nem pra ela, mas para alguém. Alguém. Alguém. Alguém. Ele? Não, não seria nunca importante pra si. O amor infinito tomava conta de sua de toda a sua capacidade de sentir, de pensar, de se importar. Não há como existir pra si quando já se existe para um sentimento que apagou os outros sentidos. Diferentemente de som e silêncio, a presença e ausência de seu amor coexistiam, complementavam-se, faziam-se ainda mais presentes e mais vazios dentro do vasto campo que o eremita percorria bêbado e torcido. Era o famoso som do silêncio. Ou uma embalagem lacrada a vácuo. o copo vazio, vazio, vazio. Sem ar.
Ao retornar pra casa, já semi consciente, passava a uma adoração lamuriosa de de seu passado, amaldiçoando sua felicidade, odiando sua tristeza, enconlhendo-se cada vez mais no fundo de sua própria saudade, como uma tartaruga que ao nascer procurasse se enterrar mais e mais fundo ao invés de buscar o ar e o oceano. quando se considerava minúsculo e já não conseguia distinguir mais os grunhidos e as palavras, respirava fundo, ligava o som, se aconchegava aos bichos de pelúcia e tinha a certeza que ela estava aconchegada a alguém melhor, maior e que definitivamente nunca sentiria falta dela, seja pela constante e infinita presença dela à vida de outrem, seja pelo desamor que suas certezas obrigavam a creditar ao mundo. Mas sabemos que ele talvez e talvez esteja enganado.
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